ana muenzner

Welcome! Quando o tema é a vida, o trabalho, o humano… ——– Bem-vinda(o)! When it is about life, work and humanity…

Sobre o tempo e a liberdade

6 Comments

O celular começou a bipar as 8:30 da manhã.  Era um pedido para mudarmos uma reunião que mexeria com a agenda de outras 6 pessoas, incluindo outro fuso horário. Meu coração disparou – não sei se de desespero ao pensar em como conciliar agendas de pessoas cada vez mais ocupadas ou se foi por pensar no tempo que eu iria investir para conseguir fazer esta mudança.

As 9:10 eu ainda estava ocupada com mudança de agenda, pois tinha vindo mais pedidos de alteração. Estes eventos, por mais simples que pareçam, me provocaram a repensar meu próprio modelo, ou talvez, a minha síndrome de mulher “super-flexível-adaptável-do-mundo-moderno”. Eu estava ciente de que não só as pessoas que me pediam para mudar a agenda sofrem desta síndrome, mas eu também.

Lembrei então de um post que o Kiu Coates escreveu no Facebook logo após eu ter ligado para ele pedindo para mudar um compromisso que tínhamos agendado:

 “O número de horas que gasto em agendar encontros e agendar de novo encontros por conta de mudanças na agenda do outro está demais!!!! A super valorização da flexibilidade e liberdade está silenciosamente matando a responsabilidade, comprometimento e eficácia de realizar qualquer proposito. O que começou como grande aula de saber ser mais flexível de estar mais respondendo ao presente, de valorizar o prazer instantâneo está virando uma opressão a manifestação de mudança. Mudanças significativas precisam de ritmo consistência e comprometimento.”

Enviei este texto para as pessoas que tinham pedido para mudar agenda comigo, buscando provocar também nelas esta reflexão. Algumas respostas expressaram a pressão e a frustração escondidas por trás deste modelo.

 “Sim eu tb concordo com isso … Minha sensação interna é essa … Não vou conseguir abraçar o mundo com as pernas … Vou correr o risco de não conseguir participar da reunião e lidar com isso… 😢 Internamente queria muito estar com vcs pra essa conversa porque todos os assuntos que discutiremos são bastante relevantes pra mim mas estou nessa “dívida do lado pessoal” por conta da minha correria e está difícil tb negar o pedido de outras pessoas… 😱”

A outra pessoa:

 “Eu também gasto muito tempo com isso!! Muito mesmo!! Agora estarei em Salvador e terei que vir para São Paulo. Enfim eu peço desculpas e luto também para não ter que viajar tanto… . Podemos tentar segunda que vem, entre 10-12. Grata”

No meu meio de convivência tenho visto cada vez mais pessoas com uma sobrecarga imensa de atividades e fazendo um grande malabarismo para conciliar vida familiar e profissional. Me pergunto: Por que estamos sempre nessa correria, as vezes indo ao nosso limite físico e mental? Por que é tão difícil desacelerar? Como responder a esta necessidade de equilibrar vida pessoal, profissional, tempo de descanso…? 🤔

Sinto também que estou sobrecarregada. Meu checklist não para de crescer. Mas, de repente, quase que num impulso incontrolável e mais urgente do que tudo, deixo de lado todo o trabalho “urgente” que eu tinha planejado para o dia e decido… entrar no Facebook!

Alguns especialistas chamam isso da síndrome da procrastinação. Passamos horas desviando a atenção do que é realmente importante, atendendo a qualquer bip de whats up no celular, sem foco. Isso pode acontece quanto você não sabe o que fazer, talvez por não saber o que é, ou não saber o que quer, ou porque você tem muita coisa ficando no seu caminho. Vou preferir chamar a minha distração com Facebook de um momento de pausa criativa, pois rendeu esta postagem, que espero que renda reflexões valiosas para você. Além disso, rendeu uma ideia para um evento de Democracia Profunda como uma metodologia que pode nos ajudar a encarar este conflito e encontrar soluções pela raiz do problema. (Veja convite no final)

Os posts que me saltaram aos olhos no Facebook me ajudaram a fazer sentido desta experiência de hoje sobre tempo e liberdade:

“…os jovens [eu incluiria os jovens adultos também] já não têm tempo… de ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas vitais tem sido tão forte como hoje. E é preciso ter tempo para buscar tempo. E outra coisa: não há que ter medo do silêncio. O medo das crianças ao silêncio me dá medo. Apenas o silêncio nos ensina a encontrar o essencial em nós.”

(Entrevista de George Steiner, filósofo inglês)

Logo depois, aparece a postagem de um grande amigo consultor que um dia me contou sobre sua experiência com rituais de culturas aborígenes australianas: “De repente perdi toda minha ansiedade de ter que realizar, fazer algo… Perdi o medo. Estou sem pressa”. Eu não lembro bem as palavras, mas lembro de como ele fez eu me sentir ao falar sobre isso. Transmitiu tranquilidade, leveza, confiança e uma conexão forte com o que havia de essencial naquele momento. Esta rápida conversa aconteceu num evento de lançamento do livro dele que muito recomendo: Novas Organizações para uma Nova Economia

Vale encerrar com o post do Mauricio, uma passagem de Rumi:

“Quando eu corro atrás do que eu acho que eu quero, meus dias são um forno de estresse e ansiedade. Se eu me situo em meu lugar de paciência, o que eu preciso flui para mim, e sem dor. A partir disso eu entendo que o que eu quero também me quer, está olhando para mim e me atraindo. Há um grande segredo aqui para qualquer um que conseguir compreendê-lo. “

(Rumi)

Rumi

E sigo na minha busca interna para aprender a lidar com flexibilidade e liberdade colocando meu tempo e energia no que é essencial para mim.

Se este assunto também te inquieta, faremos uma manhã de encontro e conversa profunda e verdadeira sobre o que nos interessa pessoalmente no tema:

“Ocupe-se ou morra!”

Trazendo pela primeira vez ao Rio a metodologia de Democracia Profunda (Lewis Method) como uma forma de acessar o que está abaixo da superfície de um problema, um conflito, uma tensão, seja em nível individual ou coletivo.

Sábado, 13/08/2016, 9:00 – 12:00 | Rio, Local a ser confirmado.

Mais detalhes sobre o evento no Facebook, clique na imagem ou escreva para mim:

get busy3

6 thoughts on “Sobre o tempo e a liberdade

  1. Adorei a reflexão. Bom que você está voltando a escrever. Eu quero retomar em breve essa atividade. Realmente tenho tentado focar no que é Essencial para mim, mas esse foco tem que vir antes de eu fazer compromissos. O pensar com qualidade tem que pressupor a minha aceitação em participar em um projeto ou não, pois dependendo do que ele vai consumir de energia e tempo, ele vai tirar meu foco do essencial e o resultado dele já não vai ser tão mais importante pois o processo passa a ser muito dolorido.

    • Dani,
      Obrigada por ler e compartilhar suas reflexões.
      Fico disponível para fazer quantas sessões de pensamento foram necessárias antes de você colocar foco no que é essencial de suas ações. Que venham ações de qualidade, seguindo a lei do mínimo esforço para o máximo de impacto positivo!
      Beijos!

  2. Oi querida Ana, seu post me trouxe muita clareza, gratidão. Eu sinto nos meus corpos essa necessidade de desacelerar há mais ou menos dois anos. Uma vontade, muitas vezes incontrolável de silêncio e repouso mas que nem sempre consigo acolher. Isso leva a mensagem as pessoas que me analisam, de que não faço nada da vida, as críticas vem de vários lados e é difícil resistir a tentação de acelerar para provar aos outros que estão errados, acho que ainda estou mostrando isso para mim mesma. Ter tempo para respirar, orar, tomar um banho com tranquilidade, ficar de bobeira com os amigos, andar até a padaria tem me feito maravilhas e me mostrado que se eu me privar de estar presente no momento em uma sociedade que tem feito isso sem perceber, vou ir contra a minha própria natureza e isso tem consequências sistêmicas marcantes. Tenho cada vez mais vontade de estar fora das cidades grandes também, parece que o tempo passa mais rápido nesses lugares, você também tem essa sensação? Beijos, Rafa

    • Oi Rafa,
      Obrigada por ler e compartilhar suas reflexões.
      Minha sensação é que o tempo passa mais devagar em áreas mais rurais, pois o nível de estímulos para os quais dou atenção diminui. Então, quando tenho menos coisas para me distrair, sinto que o tempo fica mais a meu favor e não voa sem eu perceber – sensação comum que tenho ao final de cada dia, cada semana na rotina da cidade…
      O que mais me atrai na vida fora da cidade é a possibilidade de ficar livre de barulho. Aqui no Rio não existe um só momento em que fico na ausência de barulho, seja de carros, de vozes do vizinho brigando ou cantando, da sirene, da festa na cobertura do prédio vizinho… Engraçado é que, quando cessa este barulho externo, escuto mais alto meu barulho interno. Ali a sensação de tempo muda. Ali estou presente e, aos poucos, silencio o barulho interno também. Ali tudo desacelera.
      Beijos pra você também.

  3. Querida, acabando de voltar de férias da França, e sofrendo de uma leve depressão pós-Bordeaux, me deparo com seu post. Um dia de SP, emails, rotina e demandas e já quero sair de férias de novo. Para que tudo isso? Me deu saudades imensas de voce e das nossas conversas sem pressa, e com profunda presença. Beijos e obrigada pelo chamado e por me entender, sempre.

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